1996

Quando a arte de ator era bem secreta…

No Brasil, o Plano Real traz promessas de um futuro melhor. Mamonas Assassinas e o cantor Renato Russo líder da Legião Urbana se vão e nasce a ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta, despertando o mundo para questões importantes da evolução/involução da humanidade, continuidade e extensão da vida e existência, alma e corpo.

O Teatro Ritual-bebê nasce com outro nome, “Ritual Produções Artísticas”. Os pais são Nando Rocha e Ruber Paulo. O terceiro pai chega depois, Pablo Angelino, todos estudantes do ensino médio do Lyceu de Goiânia em Goiás. Só depois uma mamãe, Maira Brisa. O nome Ritual é escolhido por conta da admiração e fixação de Ruber e Nando pelo místico, pelo mistério, pelo inexplicável, pelo sublime, pelo horror, pela paixão, a relação sagrado/profano e pelo universo fantástico que para eles essa palavra evocava.

O grupo monta o espetáculo de teatro-dança “Conta-Me-Na-Ação”, que sem texto falado, narrava a trajetória do vírus HIV no interior do corpo humano de forma poética. A estreia acontece no dia 27 de Março (dia Mundial do Teatro), nas dependências do Lyceu, marcando, assim, o nascimento do grupo. Nesse tempo a galera se reúne no salão de festas do prédio do amigo Miguel para ensaiar e… farrear. Tudo é novo, tudo é descoberta e tudo é festa para esses adolescentes inspirados.

A criança “Ritual Produções Artísticas”, tem carência de muitas coisas – as bibliotecas de Goiânia dispunham de poucos livros de teatro, não existia internet nem canal educativo disponível. A informação não navegava, permanecendo estanque, em algumas estantes ou corpos-cérebros privilegiados. Faculdade e Escola Profissionalizante em nível Técnico de teatro ainda demorariam em se tornar realidade. Só havia cursos livres e oficinas com diretores de grupos locais.

Mas a vontade de aprender era muita! Mesclado a um desejo ardente de sublimação e transcendência a serem corporificados, de transpor fantasmas individuais ao se conectar com algo maior. Não era Artaud que dizia que o teatro podia curar a vida?

Nando Rocha começa a destrinchar Stanislaviski. A obsessão o faz criar uma espécie de apostila com desenhos a partir da leitura das obras daquele que começou a revolucionar a arte do ator.  Com os desenhos, a luta contra os clichês e contra o fácil começa a ser traçada, assim como a busca pelo orgânico, pela descoberta, o doar-se a um oficio.

Mas também um imenso desejo de produzir arte… arte visual, poesia, música, dança, literatura, teatro e o que mais fosse possível criar/recriar, descobrir/redescobrir ou expressar/ser.

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