Pesquisas

TREINAMENTO

 

O termo prática extrateatral é utilizado no campo da antropologia para distinguir as técnicas corporais da vida cotidiana postas em relação com as técnicas corporais teatrais ou onde os homens se encontram em situação de representação, seja em nível social ou numa situação de apresentação ou representação artística. Para tanto, sugere um estágio entre o teatral e o cotidiano social, tendendo para fora dos certames explicitamente passiveis de teatralidade porém com alguns possíveis aspectos de performatividade social, e que não apresentem de modo evidentemente observável finalidade da personificação teatral e atuação, dividindo em pelo menos duas acepções, por parte de Ugo Volli (In.:MARINIS, 1997, p.85) onde a primeira circunscreve técnicas extrateatrais públicas como, por exemplo, a técnica de um orador, de um sacerdotes, de chefes militares, etc e técnicas extrateatrais privadas, onde se encaixam nossas práticas, referem-se, por exemplo, as técnicas do yôga, da preparação de um atleta, de certos tipos de meditação e oração, etc.

Em nosso treino de modalidades extra-teatrais experimentamos disciplinas como o kung fu, a capoeira, o pilates e o yôga. Essas modalidades representam uma instrumentalização do ator que passa a dominar outras técnicas que podem oportunamente serem utilizadas em cena. Por outro lado, essas modalidades também apresentaram obstáculos tais, que mais que aprender a realizar chutes, socos, passos, saltos, giros, posições, respirações, toques, batidas e impostações vocais, etc aprendemos também a nos superar, a nos desafiar, a nos autodisciplinar, a desenvolver maior consciência corporal, a encarar nossas limitações sem auto piedade, a seguir adiante, fortalecendo nossa vontade, nossos princípios, nossa força interna, fortalecendo a carne (a técnica, a habilidade) e o osso (a natureza interior, o espírito) do ator, como nos sugere YoshiOida (2001).

O treino teatral busca encontrar princípios que sirvam como base para a criação de ações ou de forças motrizes a procura de justificação e de teatralidade, ou seja, concentra-se no trabalho de levantamento, lapidação ou criação de ações físicas com potencialidades dramáticas. A busca de sentidos em ações polissêmicas e a definição das intensões e da intencionalidade sobre o que se faz no teatro consiste na tentativa de justificar nossas ações, nossos gestos, nossos movimentos, nossos sons, nossas falas. Há quem pense que o teatro nada mais pode ser além disso: interpretar, entender, dar sentido. Aliás a justificação ou a interpretação das intenções, costuma ser uma maneira comum de identificação do teatro inserido no cotidiano trivial na sociedade, utilizado comumente como mecanismo de dissimulação para burlar situações sociais das mais diversas estirpes.

Acreditamos poder sugerir sentidos e também ampliá-los numa recepção menos semiotizada e mais sensível, sem a necessidade de decodificação à priori, centrando a mediação entre a ator e expectador na relação entre percepções sensíveis, capturadas mais pelos sentidos e menos que pela intelecção. O panorama de linguagens diversas praticadas pelos atores do Grupo Sonhus Teatro Ritual representa o leque de vertentes constituintes da diversidade em busca de unidade, ou a justaposição de unidades em busca da diversidade presente na formação da diferença artística do grupo ou ao menos caracteriza o suprassumo de sua práxis e a base de sua poiesis criativa. A definição da diferença ao invés da identidade, para ser mais deleuziano, seria a afirmação mais correta desse processo vivido pelo grupo. A mestiçagem ou alternância de elementos e estilos estéticos e de bases técnicas e processuais distintas é característica intrínseca do projeto artístico desenvolvido pelo Grupo Sonhus Teatro Ritual desde sua criação em 1996. Esse projeto a longo prazo de pesquisa artística não visa ou mesmo se encerra na montagem de um novo espetáculo, mas constitui um projeto contínuo com o propósito de investigar as questões do labor do ator, indissociáveis ao processo criativo, destacando-se a relação do ator com a composição da linguagem cênica, as possibilidades de montagem de obra artística resultante dessa composição e de posteriores relações dessa obra com o público. Na sala de trabalho, o labor do ator sobre si mesmo foi investigado sob múltiplas abordagens e perspectivas de linguagens cênicas atorais, dançante, circense, musical, performática e ritual, além da prática de modalidades extra-cênicas como o pilates, a yôga, o kung fu e a capoeira.

O Treino Ritual Completo é uma idealização do Grupo Sonhus Teatro Ritual com o intuito de ritualizar ainda mais o nosso treinamento e é resultado da poiesis desenvolvida pelo grupo sobre seu modo de treinar com variantes de aplicação e de estilos, com base estrutural advinda do princípio da equivalência aplicado à pratica completa ou sádana da yôga. O resultado é uma pratica ritualizada estruturalmente com interligações com tradições ancestrais da yôga e do teatro dividida em oito partes. É uma variação de treino avançada, onde é requerido dos participantes algum labor já desenvolvido, tanto em compreensão física e corporal para a fluência da sequência e das proposições de cada uma das oito partes do treino, como em repertório próprio, como por exemplo possuir alguma partitura corporal.

O propósito do Treino Ritual Completo é a busca de um samadhi (A primeira parte dos Yoga Sutras se chama Samādhi-pāda, por ser o samādhi seu objeto. O significado da palavra é diferente em outras tradições religiosas hindus, como o hinduísmo e o budismo) teatral por parte do ator, ou seja, um controle completo (samādhana) das funções da consciência, que resulta em vários graus de aquisição interna da verdade (samapātti). A partir dessa busca é que sua interligação com a prática do yôga se faz completa. Essa busca também vai ao encontro dos mesmos objetivos perseguidos por toda a vida por pensadores e reformadores do teatro como Stanislaviski, Grotowski, Artaud, Decroux, entre outros. A formalização quando colocada diante do ato de fazer, da execução tende a provocar atritos, embates, a realçar aspectos intrínsecos, constituintes do sujeito e de sua ação. É diante dessa intervenção e interferência que leva a mutação, a transformação que a experiência em treino sob a ritualidade formal proposta pode trazer alguma contribuição diferencial e profunda sobre o atuante. Não é apenas o que se faz, os exercícios, as técnicas que produzem algum resultado sobre o ator, mas principalmente o como, o modo, o procedimento empreendido pelo mesmo é que poderá provocar alterações e resultados em sua atuação.

A estrutura do Treino Ritual Completo se divide em oito partes inspiradas nos angás da sádana do yôga. Sua sequência estrutural segue um fluxo continuo e crescente até seu momento ápice final onde buscamos o ato interligando-nos aos princípios grotowskianos e visando alcançar um estado profundo de presença e de elevação espiritual do atuanteque assume também ao modo grotowskiano a postura de Performer.